Tuesday, June 30, 2015

Dilma, é só correr para o abraço

Os presidentes Dilma e Obama têm encontro marcado na Casa Branca hoje. Essa reunião deveria ter acontecido em 2013, mas foi cancelada depois das denúncias de que o governo americano estava usando grampos de telefone e de email para espionar o governo brasileiro. Sem essas ferramentas para se atualizar sobre o que acontece no Brasil, Obama deve estar desatualizado sobre o que se passa por aqui e Dilma terá, portanto, dois anos de notícias para pôr em dia. Mas o que será que ela vai falar para ele?

 
Presidenta Dilma Rousseff e presidente norte-americano Barack Obama (©creative commons)

Dilma vive atualmente sua pior crise política. A mais recente pesquisa de opinião pública revela que o governo brasileiro tem, hoje, a segunda pior avaliação de sua história entre os eleitores.  O cenário econômico também vai mal: cortes de orçamento em Saúde e Educação, inflação e preço dos alimentos aumentando, conta de luz nas alturas. Nem o futebol se salva, muito pelo contrário.
Mas nem tudo está perdido. Há alguns assuntos nos quais Dilma pode esbanjar categoria e fazer um gol de placa. Quase todos dizem respeito ao que o Brasil pretende fazer com relação ao meio ambiente, especialmente para combater as mudanças climáticas. Para ajudar nossa presidenta, listamos algumas dicas que podem deixar Obama de queixo caído.
Florestas
Temos a maior floresta tropical do planeta, mas que perde uma área do tamanho de um campo de futebol por minuto para o desmatamento. Além disso, na Amazônia a retirada de madeira acontece de forma criminosa e descontrolada. No Cerrado, a coisa é ainda pior, mas Dilma pode dar a resposta. Basta anunciar que o Brasil adotará uma política nova: o desmatamento zero.
Sem derrubar mais nenhuma árvore, o País poderia reduzir em mais de 30% suas emissões de gases de efeito estufa, além de proteger nossas fontes de água e biodiversidade. Não faltam evidências de que o Brasil pode continuar expandindo a produção de alimentos sem desmatar mais nada, e Dilma também poderia anunciar um pacote de investimentos em logística em tecnologia para fortalecer isso.
Para lidar com o problema da madeira ilegal, Dilma também poderia anunciar a reformulação do sistema de controle desse setor na Amazônia e, o que agora opera quase que totalmente na ilegalidade, produziria de forma saudável e manejada, com respeito à floresta. Ao legalizar a produção, conseguiríamos aumentar a arrecadação de impostos, possibilitando a melhoria de programas sociais, além de gerar mais verbas para áreas como saúde e educação.
Com isso, diria Dilma, os americanos poderiam comprar carne, couro e madeira do Brasil, pois além de preservar a floresta, esses produtos ajudariam no desenvolvimento do País e na distribuição de renda. Para mostrar que não está de brincadeira, a Presidenta também pode levar para Obama uma cópia do Diário Oficial com as demarcações de terras indígenas e unidades de conservação que estão há anos paradas nas gavetas dos gabinetes de Brasília. Para coroar, Dilma garantiria que projetos que prejudicam as florestas e seus povos, como a PEC 215, seriam vetadas.
Energia
Dilma poderia convidar Obama a investir em energia solar por aqui. Neste campo, aliás, Dilma poderia dar um show ambiental e econômico e brilhar muito. A lógica é mais ou menos essa:
1. Estamos com um baita problema de geração de energia no país. As usinas hidrelétricas estão com reservatórios secos e, com o acionamento das usinas termoelétricas (mais caras), a conta de luz subiu mais de 60%.
3. O Brasil é um dos países onde essa fonte de energia ainda é pouco explorada, menos de 0,1% da energia do País é gerada por solar.
4. O Brasil tem um dos maiores índice de irradiação solar. Só para comparar, a Alemanha, líder mundial de geração de energia solar, recebe 40% menos raios solares que o pior local do Brasil e mesmo assim já tem 8,5 milhões de pessoas aproveitando o potencial do Sol para gerar energia, contra cerca de 500 casas no Brasil.
Dilma pode anunciar a energia solar como um caminho para, além de garantir luz na casa das pessoas, aliviar a conta no bolso do cidadão. De quebra, ainda desativaríamos as caras e poluidoras térmicas.
Se todo o potencial teórico de energia solar nas residências brasileiras fosse aproveitado, produziríamos eletricidade suficiente para abastecer pouco mais de duas vezes o consumo residencial atual. Esse aproveitamento também significaria a possibilidade de geração de 6 milhões de novos postos de trabalho diretos e indiretos e, de quebra, uma economia potencial de mais de R$95 bilhões ao ano. Como cereja do bolo, a Presidenta também poderia garantir ao presidente americano que irá liberar o uso do FGTS para as pessoas financiarem as instalações. Dá-lhe, Dilma. 
Para impressionar Barack Obama, Dilma ainda poderia anunciar que o Brasil chegará à 2030 com um teto limite de emissões de um bilhão de toneladas de gás carbônico por ano. Exemplo de ambição que irá cobrar dos seus pares na convenção da COP 21 de Paris no final do ano.
A receita não é difícil de seguir. Tanto que, para facilitar ainda mais para a Presidenta, nesta sexta (26/06) um grupo de 37 ONGs que compõem o Observatório do Clima lançou estas propostas de forma bem explicada. Além de florestas e energia, há ainda receitas para melhorar o transporte nas grandes cidades, que rouba horas importantes da vida de todos nós e envenena o ar que respiramos, e dicas para agricultura, entre outros. É só acessar aqui.
Assim, a Presidenta iria impressionar não apenas o Obama, mas certamente também receberia as bençãos do Papa Francisco, que recentemente pediu ações urgentes pelo clima e pelos mais pobres. Tudo isto está aí, no pacote que a Presidenta poderia anunciar ao Obama. Agora é só correr para o abraço, Dilma!
*Márcio Astrini é coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil

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