Thursday, November 30, 2023

6 razões para deixar a exploração de petróleo longe da Amazônia

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Para se consolidar como liderança climática, Brasil deve deixar o petróleo no passado
© João Laet / Greenpeace

Apesar da decisão técnica do Ibama que, em maio deste ano, negou autorização para a Petrobras dar início à exploração de petróleo na Bacia da Foz do Amazonas, a pressão política e da indústria para o avanço da atividade no local é constante e o tema segue ocupando os holofotes da mídia.

Rodrigo Agostinho, presidente do órgão ambiental, declarou na semana passada que a nova decisão referente ao pedido de reconsideração da petroleira para explorar o bloco  FZA-M-59, na costa do Amapá, ficará para 2024. 

O Greenpeace Brasil é uma organização que atua em defesa do meio ambiente e, por isso, ressalta que há muito em jogo quando se fala sobre abrir uma nova fronteira de exploração de petróleo, ainda mais em uma área tão sensível do ponto de vista socioambiental.

Confira 6 razões para que o Brasil deixe a exploração de petróleo longe da Amazônia.

1) Precisamos evitar o pior da crise climática

Acabar com a queima dos combustíveis fósseis, processo responsável pela emissão dos gases de efeito estufa e consequente aquecimento do planeta, é imprescindível para que metas dos acordos de combate à crise do clima sejam alcançadas.

A janela de oportunidade para manter o aumento da temperatura do planeta em 1,5ºC, como propõe o acordo de Paris, está se fechando, de acordo com alerta do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU (IPCC).

Continuar a investir em combustíveis fósseis é escolher o agravamento dos fenômenos climáticos extremos, uma grave ameaça ao meio ambiente e às populações em situação de vulnerabilidade. 

A eliminação justa e progressiva do carvão, do petróleo e gás natural são essenciais para o futuro das diferentes formas de vida no planeta. Liberar mais exploração de fósseis, ainda mais na Amazônia, vai na contramão desse objetivo. 

2) Danos incalculáveis, ameaça latente

A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, é guardiã de uma biodiversidade única e extremamente sensível – ou seja, estamos falando de espécies de fauna e flora que só ocorrem nesta região e que, caso impactadas por um eventual derramamento de petróleo, terão muita dificuldade para se regenerar.

Na Bacia da Foz do Amazonas, por exemplo, está localizado o maior corredor contínuo de manguezais do planeta. Não há como estimar o tamanho da destruição desse ecossistema caso óleo toque a costa. Na região também está o Grande Sistema de Recifes da Amazônia. 

Dados do Monitor Amazônia Livre de Petróleo mostram que o setor avança em todo a Pan-Amazônia. Por aqui, no entanto, a situação é mais grave: a Amazônia brasileira detém 52% dos blocos de petróleo (aproximadamente 451) que estão dentro das categorias de estudo, oferta e concessão em terra e mar (onshore e offshore). 

A presença dessa indústria na floresta e na costa amazônica já é uma realidade, trazendo ameaças à biodiversidade e aos povos que lá vivem e que só irão se expandir caso a Bacia da Foz do Amazonas também seja perfurada. 

Sobre essa região, em específico, há de se considerar a falta de conhecimento consolidado sobre as correntes marinhas, já que o aporte de água do rio Amazonas que deságua no oceano Atlântico sofre influência do Oceano Atlântico – o que dificulta mais clareza nas modelagens sobre como aconteceria a dispersão do óleo em caso de vazamento. 

3) Equívoco econômico 

Diante de um horizonte de descarbonização da economia global, seguir apostando em novos projetos de exploração de petróleo pode se tornar um equívoco econômico a longo prazo.

A Agência Internacional de Energia projeta o pico da demanda do petróleo para antes do fim dessa década, com posterior declínio. Isso significa que a exploração na bacia da Foz do Amazonas, por exemplo, se iniciada hoje, iria começar a produzir petróleo para um mercado em pleno encolhimento. 

Além disso, a Agência Internacional de Energia Renovável aponta que o retorno global do investimento em energia renovável é sete vezes maior do que os combustíveis fósseis.

4) A transição climática justa de verdade é possível

A Petrobras, que acabou de completar 70 anos, anuncia ser protagonista da transição energética do Brasil. Contudo, gasta milhões com a expansão do petróleo na Bacia da Foz do Amazonas e em outras regiões. Em seu plano estratégico para o período de 2023-2027, apresenta um investimento relacionado ao portfólio de baixo carbono de US$ 4,4 bilhões, apenas 5,6% do total das despesas de capital da estatal. 

Agora, imagine se, de fato, a estatal priorizasse a transição energética justa, voltando investimentos e capacidade técnica para esse objetivo? 

O governo federal também tem tropeçado neste caminho. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia a retomada da proteção da Amazônia, mas não se opõe à exploração de petróleo na região.

A contradição também aparece no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Verde, que prevê mais de R$ 449 bilhões para projetos de “transição e segurança energética”. No entanto, R$ 273,8 bilhões deste montante serão para a ampliação da exploração petroleira. 

Há orçamento e caminhos para a execução de uma transição energética justa e efetiva. Basta que essa seja, de fato, a escolha.

5) Falsas promessas

A indústria do petróleo apresenta seus projetos para a população como uma certeza de emprego e crescimento econômico por meio dos chamados royalties. Mas o que registra a realidade é que as empresas têm lucros altíssimos sem a contrapartida necessária para o bem-estar público.

Este é o caso de Maricá, no Rio de Janeiro. Artigo publicado pelo Clima Info detalha como, apesar do município ter um robusto fundo de royalties, serviços básicos ainda estão sucateados.

O RJ é o maior produtor de petróleo do país em razão dos poços da Bacia de Campos. Porém, segundo o IBGE, mais de 4 milhões viviam abaixo da linha da pobreza no estado em 2021. 

Municípios com pouca infra-estrutura, como é o caso do município do Oiapoque, no Amapá, sentem, majoritariamente, os impactos negativos da atividade. A maior parte dos empregos de qualidade gerados pela exploração de petróleo e gás não seria ocupada pela população local, pois a mão-de-obra para essa atividade é altamente especializada.

6) Liderança climática comprometida

Lula e lideranças de seu governo têm colocado o Brasil como liderança climática e amazônica, no entanto, esse protagonismo está ameaçado pela aposta na expansão do petróleo em áreas sensíveis.

Ao apoiar mais projetos de exploração, é possível que o papel assumido pelo presidente Lula de cobrar os países mais ricos, que mais contribuem para a crise climática, seja fragilizado. Até oportunidades de financiamento climático podem ser afastadas do país. 

Por essas (e tantas outras) razões, estamos nos mobilizando para pressionar o presidente brasileiro a declarar a Amazônia uma zona livre de petróleo. Assine a petição e compartilhe com sua rede de contatos.

Sem a ajuda de pessoas como você, nosso trabalho não seria possível. O Greenpeace Brasil é uma organização independente - não aceitamos recursos de empresas, governos ou partidos políticos. Por favor, faça uma doação hoje mesmo e nos ajude a ampliar nosso trabalho de pesquisa, monitoramento e denúncia de crimes ambientais. Clique abaixo e faça a diferença!

 
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Lu Sudré Lu Sudré é jornalista do Greenpeace Brasil em São Paulo e atua na frente de Oceanos. Tem experiência na cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, direitos humanos e polític

Wednesday, November 29, 2023

COP28: veja as demandas do Greenpeace Brasil e junte-se a nós por um mundo livre de petróleo!

Laís Modelli 

Países devem se comprometer a eliminar os combustíveis fósseis até 2050, acelerar a transição energética e colocar em prática o Fundo de Perdas e Danos. O tempo para agir está se esgotando!

Uma delegação do Greenpeace estará na Conferência do Clima da ONU nos Emirados Árabes Unidos, a COP28, para pressionar os países a ajustarem seus compromissos em relação ao Acordo de Paris para que a meta de limitar o aquecimento global a 1.5ºC se mantenha viável.

A cada ano que não agimos, fica mais caro e mais difícil reduzir as emissões. E não conseguiremos emitir menos e evitar a catástrofe climática que se aproxima sem atacar o problema na fonte: os combustíveis fósseis.

Por isso, a principal demanda do Greenpeace Brasil na COP28 é que os países construam um acordo global para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis até 2050. Superar nossa dependência de petróleo não será fácil,

E para isso, precisaremos de um esforço conjunto de governos, setor privado e mudança profunda nos nossos padrões de produção e consumo.

A queima de combustíveis fósseis, ainda em franca expansão no mundo – inclusive no Brasil, o nono maior produtor de petróleo -, é a principal causadora do aquecimento global e, consequentemente, da crise climática que vivemos. Para se ter uma ideia do quão poluidores são os combustíveis fósseis, cerca de 87% das emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE) no mundo são provenientes deles.

Apesar disso, os países do Acordo de Paris, criado lá em 2015, ainda não se comprometeram em construir um plano para acabar com a dependência global dos combustíveis fósseis. Basta, precisamos de um acordo global com metas claras e definidas para cada país já!

Tal acordo pelo fim de todos os combustíveis fósseis até 2050 deve contemplar:

  • reduzir a produção dos combustíveis fósseis no mundo em 43% até 2030 e em 60% até 2035 (comparado aos níveis de 2019);
  • o processo deve ser liderado e financiado a nível global pelos países desenvolvidos, os maiores poluidores e os mais responsáveis pela crise climática;

Após quatro anos de retrocessos na política ambiental e climática, o Brasil tem a chance de assumir o protagonismo nessa COP28: além de ter uma matriz energética de baixa emissão de carbono, o país celebra a redução de 22,37% do desmatamento na Amazônia (período de agosto de 2022 a julho de 2023).

Porém, esses fatores não bastam para colocar o país no caminho certo. Precisamos de ações conjuntas que contemplem, mais uma vez, o fim dos combustíveis fósseis. E, como sabemos, o Brasil é o novo maior produtor de petróleo e segue considerando novas áreas de exploração, inclusive em áreas socioambientais importantíssimas para a vida no planeta, como a Foz do Rio Amazonas.

O presidente Lula estará na COP28 nos dias 01 e 02 de dezembro e o Greenpeace Brasil estará lá, pressionando para que a Amazônia seja declarada área livre da exploração de petróleo, já! Também pedimos:

  • Brasil deve assumir o compromisso de redirecionar subsídios do petróleo à implementação e viabilização de sistemas energéticos sustentáveis, que democratizam o acesso à energia e priorizam o bem-estar social, econômico e ambiental de toda a
    população;
  • Brasil deve assumir seu potencial de se tornar carbono negativo até 2045, com uma NDC com metas de redução real das emissões absolutas, alinhada a um Plano de Transformação Ecológica justo e ambicioso, garantindo controle social e a retomada de processos participativos.

A nível global, também pressionamos os países que excluam imediatamente a exploração dos combustíveis fósseis em demais áreas críticas a vida no planeta.

 A crise climática afeta de forma desproporcional populações periféricas, pessoas pretas e pardas, mulheres e crianças, que, além de não lucrarem com a exploração de combustíveis fósseis, agora enfrentam os efeitos mais devastadores do clima com as próprias vidas.

O direito internacional em matéria de direitos humanos é claro: as comunidades mais afetadas pela crise climática têm direito a reparação pelos danos sofridos! Por isso, é urgente que entre em funcionamento o Fundo de Perdas e Danos, criado na COP27, mas que ainda precisa ser detalhado o seu funcionamento.

Nesse processo, os países precisam adotar princípios decoloniais e antirracistas na
operacionalização do Fundo de Perdas e Danos, para que representantes dos países em desenvolvimento e instituições que representam essas populações
possam estar no centro das discussões e decisões
sobre esses fundos

Precisamos de ação em rede!

Ninguém conseguirá conter a crise climática sozinho. Juntos, podemos conseguir. Quanto mais pessoas e organizações agirem agora a favor das mudanças que precisamos, maior será a pressão sobre os governos para agir.

Junte-se ao Greenpeace Brasil no pedido global por um mundo livre de petróleo e demais combustíveis fósseis até 2050!

A região Amazônica está vivendo uma seca histórica, que mostra a gravidade dos eventos climáticos extremos. E milhares de pessoas estão sentindo os efeitos deste desastre na pele. Por isso, o Greenpeace retomou a campanha Asas da Emergência e já levou toneladas de alimentos e outros itens essenciais para as comunidades mais afetadas. Agora, precisamos do seu apoio para chegar mais longe. Por favor, faça uma doação emergencial.

 
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Laís é jornalista especializada na cobertura de temas relacionados à Amazônia e às negociações climáticas há quase dez anos. Rema e limpa praias nas horas vagas.

Monday, November 27, 2023

Tratado Global dos Plásticos: países produtores de petróleo atrasam negociações

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Países com baixa ambição para o acordo travaram avanços no texto do instrumento
© Pedro Armestre / Greenpeace

A terceira sessão do Comitê Intergovernamental de Negociações (CIN3) para a criação do Tratado Global dos Plásticos, que aconteceu em Nairóbi, no Quênia, chegou ao fim no dia 19 de novembro, deixando organizações ambientalistas frustradas.

Países com baixa ambição para o acordo e, não por acaso, grandes produtores de petróleo, travaram avanços no texto.  De acordo com observadores oficiais, Arábia Saudita, Rússia e Irã estão entre as nações que defenderam o foco na gestão de resíduos e na reciclagem, ao invés de ações robustas para a redução da produção – medida essencial para combatermos a poluição plástica.

Em razão dessa movimentação, ainda não há um plano de trabalho formal para avanços no conteúdo do acordo antes da nova rodada de negociações, que acontecerá no Canadá em abril de 2024.  

Graham Forbes, chefe da delegação do Greenpeace que acompanhou a sessão em Nairóbi, lamentou o desfecho do encontro.

“O plástico prejudica diretamente cada uma das 8,1 bilhões de pessoas neste frágil planeta, mas nossos líderes escolheram efetivamente tratar as empresas petroquímicas como as únicas partes interessadas que valem a pena ouvir”, declarou.

O líder da Campanha Global sobre Plásticos no Greenpeace Estados Unidos também destacou que não é possível proteger o clima, a biodiversidade e a saúde humana sem que a produção desenfreada de plásticos chegue ao fim. 

“Estamos caminhando para uma catástrofe e já passamos mais da metade das negociações do Tratado. Não vamos resolver a crise da poluição a menos que se restrinja, reduza e limite a produção de plástico”, disse Forbes.

O Greenpeace alerta que os governos estão permitindo que os interesses dos combustíveis fósseis conduzam as negociações em direção a um acordo que piorará o problema do plástico, o que nos fará enfrentar o pior das mudanças climáticas.

“Quando as negociações forem retomadas no Canadá em abril de 2024, nossos líderes precisarão estar prontos para mostrar um nível de coragem e liderança que ainda não vimos”, reiterou o porta-voz.

Organizações ambientais e científicas defendem que o Tratado Global dos Plásticos deve reduzir a produção de plástico em pelo menos 75% até 2040. Este é o primeiro acordo internacional legalmente vinculante para combater o lixo plástico.

A região Amazônica está vivendo uma seca histórica, que mostra a gravidade dos eventos climáticos extremos. E milhares de pessoas estão sentindo os efeitos deste desastre na pele. Por isso, o Greenpeace retomou a campanha Asas da Emergência e já levou toneladas de alimentos e outros itens essenciais para as comunidades mais afetadas. Agora, precisamos do seu apoio para chegar mais longe. Por favor, faça uma doação emergencial.

 

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Lu Sudré é jornalista do Greenpeace Brasil em São Paulo e atua na frente de Oceanos. Tem experiência na cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, direitos humanos e polític

Monday, November 20, 2023

COP28: os desafios, as oportunidades e o que poderá ser decidido

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Em 30 de novembro, começa a 28ª edição da Conferência do Clima das Nações Unidas, a COP28, que será realizada em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Até 12 de dezembro, sociedade civil organizada e representantes de mais de 200 países se reunirão para discutir ações que determinarão o nosso futuro como espécie no planeta.

O Greenpeace Brasil estará na COP28 para pressionar os países a adotarem medidas reais para conter a crise climática, que assola partes do Brasil e de diversas regiões do mundo com secas, eventos extremos e seguidas ondas de calor que superam os 40º C. Queremos que os países se comprometam com o fim dos combustíveis fósseis até 2050 e com fim imediato da exploração de combustíveis fósseis em ecossistemas críticos para a vida no planeta, como a Amazônia (veja mais abaixo).

Não podemos mais esperar por mudanças, precisamos de ação agora!

Abaixo, explicamos em cinco pontos o que é a Conferência do Clima é tão importante e por que a COP28 será a edição mais importante desde o Acordo de Paris.

  1. O que é a COP?
  2. Por que a COP28 será tão importante?
  3. Quais os desafios da COP28?
  4. Quais as oportunidades da COP28?
  5. Como eu posso pressionar os governos durante a COP28?

O que é a COP?

A Conferência do Clima da ONU é o único fórum que aborda questões climáticas onde todos os países estão presentes. Portanto, uma COP tem a responsabilidade e a legitimidade para tomar decisões que determinarão a nossa capacidade como comunidade global de conter coletivamente a crise do clima. Além disso, os resultados de cada COP podem fornecer ferramentas e sinais poderosos ao mundo, trazendo peso e significado para legisladores, tribunais, opinião pública, empresas e investidores em todo o mundo.

A sociedade civil global representada por jovens, lideranças indígenas e comunidades tradicionais, organizações etc, também participam das COPs, e sua presença tem sido essencial para cobrar os governos por soluções reais, prevenir o greenwash e responsabilizar os maiores poluidores históricos do planeta, a saber, os países desenvolvidos.

É esperado, contudo, que, com tantos personagens envolvidos e que precisam chegar a consensos nas tomadas de decisões, a emergência climática nunca será resolvida em uma única conferência da ONU. Porém, cada COP tem o potencial de promover as soluções-chave de que o mundo tanto necessita – tanto a nível global como nacional.

Por que a COP28 será tão importante?

Na COP28, será lançado o primeiro Balanço Global do Acordo de Paris (chamado de GST, sigla de Global Stocktake).

O Acordo de Paris é um pacto global firmado em 2015 por 197 países (incluindo o Brasil) para evitar um aquecimento do planeta acima de 1,5°C em relação à era pré-industrial – o que seria catastrófico e perigoso para a vida na Terra. Para isso, todos os países membros, ricos ou em desenvolvimento, são obrigados a adotar metas nacionais de redução de gases causadores do efeito estufa, como o gás carbônico. O mecanismo também prevê que os países desenvolvidos dêem suporte financeiro aos em desenvolvimento, para que estes possam cumprir suas metas e se adaptarem às mudanças do clima.

Passados oito anos do Acordo de Paris, o 1º Balanço Global avaliou o progresso coletivo dos países para alcançar os objetivos do pacto (mitigação, adaptação e de meios de implementação). Spoiler: o balanço global não é animador.

Em resumo, a COP28 é tão importante porque será o momento dos países olharem para o que funcionou, o que não avançou e onde é mais urgente avançar na luta para conter a crise do clima e se adaptar às mudanças climáticas. Tudo isso deverá ser considerado para que os países apresentam uma nova rodada de metas climáticas nacionais, que deverá acontecer em 2025, durante a COP30, que será realizada no Brasil. 

Entenda no vídeo abaixo o que é o Acordo de Paris:

Quais as oportunidades da COP28?

Não é novidade a informação de que a queima de combustíveis fósseis é a principal causadora da atual crise climática.

Apesar disso, o petróleo, o carvão e o gás natural nunca foram explicitamente nomeados pelas declarações da Conferência do Clima da ONU como os principais responsáveis, mas isso muda agora na COP28: pela primeira vez, os combustíveis fósseis estarão no centro das conversas.

Essa é uma oportunidade única de fazer os governos, conjunta e individualmente, a firmarem um acordo global na COP28 que ponha fim a era dos combustíveis fósseis. Mais que isso, um acordo global com metas e etapas que estabeleçam:

  • a eliminação justa e progressiva do carvão, o petróleo e o gás até 20250;
  • o fim imediato da exploração de combustíveis fósseis em ecossistemas críticos para a vida no planeta, com destaque para a Amazônia;
  • a urgência para acelerar a transição energética para as energias renováveis.
Deixar o petróleo no passado é garantir o futuro de todas as formas de vida! Essa é uma das demandas do Greenpeace na COP28
© Lucas Landau/Greenpeace

Quais os desafios da COP28?

São muito os desafios de uma COP que será realizada em uma região que é uma das maiores produtoras de petróleo do mundo, os Emirados Árabes Unidos. Não é coincidência que o principal pedido do Greenpeace na COP28 é “Chega de petróleo!”.

Porém, existe outro desafio central em 2023: promover a justiça climática por meio de um fundo aos que mais estão sofrendo com os impactos da crise do clima!

Em 2022, na COP27, depois de anos de luta da sociedade civil global, os países, enfim, criaram um fundo para socorrer os países do Sul Global mais vulnerabilizados pela crise climática, chamado de Fundo de Perdas e Danos.

“Perdas e Danos” é um conceito que se refere a situações onde as perdas decorrentes dos eventos climáticos extremos não podem mais ser evitadas e, a única coisa que resta, é agir para reparar os danos sofridos.

Lá em 2015, o Acordo de Paris previu a criação de um Fundo pelos países ricos do Norte Global – os maiores poluidores e os mais responsáveis pela crise climática atual – para financiar ações de Perdas e Danos nos países em desenvolvimento e insulares – os menos responsáveis pela crise. Quase dez anos depois e muitas tragédias nesse meio tempo, tal fundo ainda não entrou em operação.

Na COP28, os países deverão entrar em um acordo para detalhar o Fundo de Perdas e Danos (quem colocará recursos, quais países terão acesso a eles, quem irá gerar o fundo, como funcionará o acesso etc).

Depois de enfrentarmos os desastres de 2023, o ano mais quente da história, uma coisa é certa: o Fundo de Perdas e Danos precisará reparar injustiças e entrar em vigor já! Os mais vulnerabilizados não podem continuar pagando a conta da crise climática sozinhos.

Como eu posso pressionar os governos durante a COP28?

O mundo não tem mais tempo a perder. Se quisermos evitar um futuro sombrio, precisamos agir individual e coletivamente agora! Durante a COP28, podemos usar nosso tempo e vozes para pressionar os governos a agirem no caminho certo.

Você pode se juntar ao Greenpeace Brasil compartilhando informações sobre a urgência climática e usando a hashtag #Chegadepetróleo.

A nível nacional, também temos o abaixo-assinado “Petróleo na Amazônia Não!” para pressionar o governo Lula a se comprometer a não explorar petróleo na região. Se quisermos ter um futuro, o petróleo precisa ficar no nosso passado!

A região Amazônica está vivendo uma seca histórica, que mostra a gravidade dos eventos climáticos extremos. E milhares de pessoas estão sentindo os efeitos deste desastre na pele. Por isso, o Greenpeace retomou a campanha Asas da Emergência e já levou toneladas de alimentos e outros itens essenciais para as comunidades mais afetadas. Agora, precisamos do seu apoio para chegar mais longe. Por favor, faça uma doação emergencial.

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Thursday, November 16, 2023

Negociações para criação do Tratado Global dos Plásticos são retomadas

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Segundo a OCDE, o mundo produz 460 milhões de toneladas por ano
© Juan Pablo Eijo / Greenpeace

As discussões sobre a criação do Tratado Global dos Plásticos estão sendo retomadas nesta segunda (13), em Nairóbi, no Quênia. A nova rodada de negociações acontece na sede do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e é a terceira das quatro sessões previstas pela ONU.

Os representantes de 167 países terão como foco as propostas do Rascunho Zero do instrumento. O texto-base foi divulgado em setembro deste ano e gerou expectativas na comunidade ambiental internacional.

O objetivo é garantir que os governos entrem em acordo sobre ações e políticas para frear a produção e consumo desnecessário dos plásticos, que causam impactos negativos para o meio ambiente e para a saúde da população – microplásticos já foram encontrados até mesmo no coração humano.

A melhor estratégia para reduzir a poluição plástica, segundo o Pnuma, é aumentar a reutilização, a reciclagem, a reorientação e a diversificação por meio de um modelo de economia circular.

Seguindo esta lógica, os escritórios do Greenpeace têm se articulado ao redor do mundo para mobilizar pessoas em defesa de um Tratado robusto, que realmente enderece soluções para os problemas apresentados e não fique refém dos interesses dos grandes produtores de plástico. 

O Greenpeace defende que o Tratado Global dos Plásticos deve:

• Acabar com a poluição plástica – da produção ao descarte;

• Estabelecer uma meta juridicamente vinculativa para a redução da produção de plásticos em pelo menos 75% até 2040, para que o mundo possa evitar cenários mais graves da crise climática;

Acabar com os plásticos de uso único e incentivar a reutilização;

Garantir uma transição energética justa e inclusiva para uma economia de baixo carbono, com a eliminação gradual dos combustíveis fósseis;

Tornar toda a cadeia de suprimentos de plásticos sustentável, por meio da capacitação de trabalhadores e priorização dos catadores de materiais recicláveis;

Estar firmemente enraizado em uma abordagem baseada nos direitos humanos que também vise a redução da desigualdade, priorize a saúde humana e centralize a justiça em sua criação e implementação;

Movimento global

A crise da poluição plástica é um dos maiores desafios ambientais que existem, afetando a vida marinha e a população nos quatro cantos do mundo. Para trazer atenção à importância da terceira rodada de negociações, o Greenpeace lança hoje um vídeo-manifesto com atores, ativistas, cientistas e atletas de diferentes países, pedindo o fim da Era do Plástico.

O vídeo conta com a participação da conservacionista Jane Goodall, do líder Waorani Nemonte Nenquimo, do ator Lee Jung-jae e outras personalidades.

Estamos diante de uma oportunidade única de paralisar a produção desenfreada de plásticos. Mas isso só será possível com um Tratado ambicioso e juridicamente vinculante, ou seja, com força de lei.

Compartilhe o vídeo com a sua rede e fortaleça a mobilização por um Futuro Sem Plásticos!

A região Amazônica está vivendo uma seca histórica, que mostra a gravidade dos eventos climáticos extremos. E milhares de pessoas estão sentindo os efeitos deste desastre na pele. Por isso, o Greenpeace retomou a campanha Asas da Emergência e já levou toneladas de alimentos e outros itens essenciais para as comunidades mais afetadas. Agora, precisamos do seu apoio para chegar mais longe. Por favor, faça uma doação emergencial.

 

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Lu Sudré é jornalista do Greenpeace Brasil em São Paulo e atua na frente de Oceanos. Tem experiência na cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, direitos humanos e polític

Greenpeace sofre processo de intimidação de Shell

Greenpeace Brasil  

Petroleira pede indenização de US$ 8,6 milhões e que o Greenpeace seja proibido para sempre de protestar em plataformas da multinacional.

Ativistas que ocupam plataforma da Shell erguem banner com a mensagem "Chega de Petróleo", em português
Os ativistas que participaram da ação na plataforma operada pela Shell também deram um recado ao mundo em português: “Chega de Petróleo!” (Foto: Greenpeace)

A gigante petrolífera Shell ingressou com ação judicial contra o Greenpeace Reino Unido e o Greenpeace Internacional pedindo uma indenização de US$ 8,6 milhões e a proibição de protestos em suas plataformas de petróleo e gás, em qualquer lugar do mundo para sempre. O valor representa pouco mais de 2 horas de lucro para a Shell.

O processo é uma resposta a uma ação pacífica realizada pelo Greenpeace no início do ano, em que ativistas ocuparam uma plataforma petrolífera operada pela Shell, nas Ilhas Canárias, para protestar contra a perfuração de novas jazidas de petróleo e gás. Os ativistas também pediam que a multinacional fosse responsabilizada pelos danos causados às pessoas e ao planeta, que levaram o mundo à atual crise climática.

O diretor executivo do Greenpeace do Sudeste Asiático, Yeb Saño, citado individualmente na ação judicial, foi um dos ativistas que tentou embarcar na plataforma e protestou contra sua chegada em um porto norueguês.

Segundo Saño, a Shell tenta silenciar exigências legítimas contra a exploração insensata e gananciosa de novas áreas de combustíveis fósseis. “Eu me levantarei no tribunal e lutarei contra isso; e se a Shell se recusar a parar de perfurar, eu me recuso a parar de lutar pela justiça climática”, disse Saño.

Ativistas do Greenpeace durante o trajeto até a plataforma operada pela Shell, em 31 de janeiro de 2023, com a bandeira ‘STOP DRILLING. START PAYING’ (Parem de perfurar, comecem a pagar)

O Greenpeace atua há mais de 50 anos, por meio de campanhas pacíficas, denunciando e confrontando governos, projetos e empresas que incentivam a destruição do meio ambiente e ameaçam o clima global.

Além de uma tentativa de silenciar protestos da sociedade civil contra as medidas do executivo-chefe da Shell, Wael Sawan, de intensificar os investimentos em combustíveis fósseis e abandonar qualquer pretensão de transição para energias renováveis, a ação judicial é uma das maiores ameaças contra o Greenpeace nestas cinco décadas de existência. 

Areeba Hamid, co-diretora executiva do Greenpeace Reino Unido, disse: “Sob o comando de Wael Sawan, a Shell abandonou qualquer pretensão de boas intenções e está adotando descaradamente uma estratégia que não é apenas arriscada para os acionistas, mas completamente devastadora para as pessoas que estão na linha de frente da crise climática. Sawan está abandonando as políticas verdes, demitindo ex-colegas de sua divisão de energias renováveis, e iluminou o mundo com gás ao afirmar que uma retirada dos combustíveis fósseis seria ‘perigosa’. Agora, ele está tentando esmagar a atuação do Greenpeace. Mas, ao fazer isso, ele está tentando silenciar as demandas legítimas por justiça climática e pagamento por perdas e danos”. 

Hamid continua: “Precisamos que esse caso seja arquivado, pois está claro que Sawan está determinado a lucrar, independentemente do custo humano.”

As negociações entre as partes já foram concluídas, mas os custos legais do processo ainda correm e estão aumentando desde 1º de novembro. Enquanto isso, o Greenpeace aguarda os detalhes – conhecidos como “particularidades” – da reivindicação da Shell.

O Greenpeace Reino Unido pede aos apoiadores doações de emergência para ajudar a combater o caso. 

A ação pacífica alvo da ira da Shell

No início do ano, o Greenpeace Internacional realizou um protesto pacífico em que seis ativistas ocuparam a unidade flutuante de produção, armazenamento e descarregamento (FPSO) da Shell na plataforma Penguins, por 13 dias. Durante esse período, a Shell anunciou lucros anuais recordes de quase US$ 40 bilhões. 

A plataforma Penguins é a primeira embarcação operada pela Shell no norte do Mar do Norte em 30 anos. No pico de produção, o projeto pode produzir 45 mil barris de petróleo por dia, Mesmo diante dessa capacidade gigantesca de produção, a Shell já sugeriu que poderá abrir outras áreas para exploração.

Na época do protesto, a Shell e a construtora de plataformas Fluor alegaram que pediriam mais de US$120.000 em indenizações, ainda que, segundo elas, os danos às empresas superariam US$ 8 milhões. E ofereceram a celebração de um acordo com indenização em valor reduzido de US$ 1,4 milhão e um compromisso legal de que todas as organizações do Greenpeace concordariam em nunca mais realizar protestos em suas infraestruturas, no mar ou em portos, em qualquer lugar do mundo.  

O Greenpeace Reino Unido e o Greenpeace Internacional responderam que concordariam com essa proibição de protesto, mas com a condição de que a Shell cumprisse a ordem judicial da Holanda que exige que a petroleira reduza suas emissões em 45% até 2030, em relação a 2019, em todas as atividades.  

Caso a ação fosse levada ao tribunal, os honorários advocatícios durante o processo judicial poderiam chegar a outros milhões.

Contato com a imprensa

Os ativistas e a diretora executiva do Greenpeace Reino Unido, Areeba Hamid, estão disponíveis para entrevistas. Contato: press.uk@greenpeace.org  

A região Amazônica está vivendo uma seca histórica, que mostra a gravidade dos eventos climáticos extremos. E milhares de pessoas estão sentindo os efeitos deste desastre na pele. Por isso, o Greenpeace retomou a campanha Asas da Emergência e já levou toneladas de alimentos e outros itens essenciais para as comunidades mais afetadas. Agora, precisamos do seu apoio para chegar mais longe. Por favor, faça uma doação emergencial.

Friday, November 10, 2023

Os mangues da Amazônia também precisam de proteção

https://lh3.googleusercontent.com/a/ACg8ocKTiXtHPNSSkaANRVWGkuqHoHmxMKsQA1mZN3wgWyMZk6M=s96-c

Os manguezais são essenciais para a biodiversidade. Fotografia do Parque Nacional do Cabo Orange, no Amapá.
© Enrico Marone/Greenpeace

A Amazônia é mundialmente conhecida por suas densas florestas. Mas é também na costa amazônica que está a maior faixa contínua de manguezais do planeta, com mais de 7.500 km² de extensão.

Você sabia que os mangues são berçários para a biodiversidade costeira e são fundamentais para o desenvolvimento da vida na região? Por se encontrarem em zonas de transição entre o ambiente marinho e terrestre, criam condições ambientais únicas para alimentação e reprodução de diversas espécies. 

Eles abrigam peixes, caranguejos e mariscos, além de lamas altamente nutritivas para plantas, insetos, crustáceos, pássaros e até mesmo alguns mamíferos. Ao sustentar o ciclo de vida dessas espécies, os mangues também se tornam fundamentais para a pesca artesanal e para a população local, principalmente nos estados do Amapá e Pará. 

E não para por aí. Os mangues da costa amazônica são grandes aliados no combate às mudanças climáticas. As densas vegetações e raízes capturam e armazenam CO2, formando reservatórios de carbono conhecidos como Carbono Azul, fundamentais para frear a crise do clima.

Imagem aérea do Parque Nacional do Cabo Orange, na costa do estado do Amapá, no extremo norte do Brasil. O local congrega biomas variados, como mangues e florestas tropicais (Foto: Victor Moriyama/Greenpeace)

A costa amazônica abriga pelo menos 80% dos mangues do Brasil, e as comunidades que lá vivem também têm os manguezais como protetores. Afinal, eles atuam como uma barreira natural que ajuda a estabilizar a costa e mitigar o avanço da erosão costeira em razão das marés, ondas e inundações. 

Essa Amazônia plural, encantadora e guardiã de uma imensa biodiversidade está sob ameaça. E a Amazônia dos mangues, que boa parte da população brasileira ainda não conhece, pode ser diretamente impactada pela exploração de petróleo.

Enrico Marone, porta-voz da frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, destaca que onde há exploração e produção de petróleo, há risco de derramamento. Ou seja: avançar com a exploração de petróleo na região da Bacia da Foz do Amazonas é colocar os manguezais em risco!

“Não existe, hoje, tecnologia viável para a limpeza de mangues em caso de contaminação por petróleo, o que significa que os possíveis impactos de um vazamento seriam desastrosos e irreversíveis para esse importante ecossistema da costa norte do Brasil”, alerta o oceanógrafo.

Como recuperar uma lama densa como a dos manguezais, se eventualmente forem contaminadas pelo óleo? Diferentes espécies serão diretamente atingidas, e a fonte de subsistência das comunidades pesqueiras comprometidas.

É também para defender a Amazônia dos mangues que pedimos teu apoio. Faça parte do abaixo-assinado “Petróleo na Amazônia Não” e nos ajude a pressionar o governo brasileiro a cumprir o compromisso de defender a Amazônia! 

Os mangues da costa amazônica são grandes aliados no combate às mudanças climáticas
© Enrico Marone/Greenpeace

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Lu Sudré é jornalista do Greenpeace Brasil em São Paulo e atua na frente de Oceanos. Tem experiência na cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, direitos humanos e polític

Desmatamento da Amazônia tem queda de 22% em 2023

Greenpeace Brasil 

Segundo dados do Prodes, de agosto de 2022 a julho de 2023, a Amazônia perdeu 9.001 Km², uma área de floresta de tamanho equivalente a 7,5 vezes a cidade do Rio de Janeiro

Desmatamento e queimada próxima à Floresta Nacional Bom Futuro, em Porto Velho, Rondônia, em outubro de 2023. © Marizilda Cruppe / Greenpeace

De acordo com os dados preliminares divulgados hoje (9) pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, relativos ao Programa de Monitoramento do Desmatamento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), houve uma queda de 22,3% na taxa de desmatamento da Amazônia em 2023. 

De agosto de 2022 a julho de 2023, período analisado pelo sistema, a Amazônia perdeu 9.001 quilômetros quadrados (Km²) de florestas, uma redução na comparação com o resultado de 2022, quando foram desmatados 11.594 Km², e a menor taxa desde 2019. O resultado é um alívio e uma boa notícia para a floresta e para o mundo, tendo em vista o aumento expressivo dos alertas de desmatamento registrados nos últimos cinco meses do governo Bolsonaro e nos três primeiros meses do governo Lula. 

“O novo governo teve dificuldade de retomar a governança na região, mas a partir de abril os resultados da mudança do discurso sobre a área ambiental, da atuação firme dos órgãos de controle e fiscalização e da retomada de políticas públicas começaram a aparecer, levando a esta queda na taxa”, afirma Rômulo Batista, porta-voz do Greenpeace

Apesar da boa notícia, a redução ainda é insuficiente para que o Brasil cumpra a meta de NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) assumida junto a Organização das Nações Unidas (ONU), de reduzir em 48% suas emissões até 2025, e 53% até 2030, valores comparados aos níveis de 2005.

O desmatamento é atualmente a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa do Brasil e, para atingir a meta de redução de emissões, o País terá que avançar muito mais e rapidamente para reduzir a destruição florestal. Se quiser combater a crise climática e a perda de biodiversidade em curso, o Brasil tem que ser capaz de reduzir até 2026 o desmatamento até os níveis de 2012, quando chegou 4,6 mil km², o menor número da série histórica.

“O governo Lula e a ministra Marina Silva já conseguiram isso antes, mas terão que se esforçar e ampliar as ações e programas para gerar renda que sejam compatíveis com a floresta em pé, levando assim justiça social e ambiental para região. Além disso, o governo deve usar toda sua articulação política para evitar que o Congresso avance com as boiadas antiambientais, como é o caso de derrubar o veto do marco temporal das Terras Indígenas”, analisa Rômulo Batista.

Para isso, o governo terá que avançar no reconhecimento, criação e gestão de áreas protegidas, bem como em políticas econômicas e sociais que levem a uma transição ecológica definitiva para o Brasil, e que estabeleça na Amazônia um modelo de desenvolvimento que traga avanço real e qualidade de vida para quem vive na região, com floresta em pé, dignidade e mirando no futuro. 

Desmatamento nos Estados

De acordo com os dados divulgados pela pasta de Meio Ambiente, a redução de 2.593 km² no desmatamento da Amazônia, na comparação com a última taxa, evitou a emissão de 133 milhões de toneladas de CO² equivalente. Atualmente, o desmatamento e as queimadas correspondem a 49% das emissões nacionais.

Entre os estados,  a maior redução foi registrada no Amazonas, onde houve queda de 40% na área desmatada, passando de 2.594 km² em 2022, para 1.553 km² este ano. É o menor número desde de 2020. Apesar disso, a ministra Marina Silva ressaltou que “só a sinalização da feitura da BR-319 fez com que o desmatamento aumentasse 110% nessa região”. Já o Mato Grosso apresentou aumento de 9%, indo de 1.927 km² no último ano, para 2.088 este ano, a segunda pior taxa dos últimos cinco anos.

De acordo com representantes no ministério, no MT vem ocorrendo uma dinâmica específica, que é o desmatamento por degradação progressiva, que é quando a floresta vai sendo fragilizada pelas queimadas, até que a área deixa de ser considerada floresta e entra na conta do desmatamento. 

Dados por estado

Estado 20232022
AC597840 – 29%
AM15532594 -40 %
AP1214-14%
MA284271+5% 
MT2086 1927+8%
PA32724162-21%
RO873 1480-42%
RR297279  +6%
TO2627-3% 

Queimadas seguem sendo um desafio

Apesar da boa notícia quanto à taxa de desmatamento, a Amazônia ainda enfrenta uma seca sem precedentes, que criou o ambiente perfeito para a disparada do número de focos de calor em outubro. “Apesar da diminuição do desmatamento vimos um mês de outubro bastante ruim no Amazonas e no Pará, quando olhamos os focos de calor e queimadas, a crise ambiental e o fenômeno El Nino, que se agravaram neste período, levando o fogo entrar em áreas de florestas. Além disso, há quantidades enormes de áreas desmatadas e não queimadas nos últimos anos que estão sendo queimadas esse ano”, complementa Rômulo. Segundo informações do Ministério do Meio ambiente, é previsto que o El Niño persista até 2024, o que inspira atenção no combate e prevenção às queimadas. 

“A melhor forma de diminuir incêndios é reduzindo o desmatamento. Esse ano tivemos um fenômeno onde cerca de 30% dos focos de calor se deram em florestas primárias. Já estamos passando por um estresse hídrico da própria floresta, onde o incêndio já está se dando em floresta primária e isso já é um sinal dos efeitos das mudanças climáticas incidindo sobre a floresta”, disse Marina Silva. “Somos desafiados a quebrar a inércia dos resultados já alcançados”, completou.

Por que precisamos reduzir a produção de plásticos em 75% até 2040?

Lu Sudré 

Medida ajudaria o planeta a evitar o pior da crise climática; líderes globais irão se reunir para discutir texto do Tratado Global dos Plásticos na próxima semana

O Tratado Global dos Plásticos, que está em negociação na ONU, é uma oportunidade única para proteger as pessoas e o planeta dos impactos da crise da poluição plástica
© Wason Wanichakorn / Greenpeace

Os plásticos estão por todos os lugares. Nas casas das pessoas, nos estabelecimentos, nas grandes indústrias e, infelizmente, nos mares. Vivemos inundados por eles. O problema é que estamos falando de um material que gera graves impactos ambientais e para a saúde humana ao longo de todo o seu ciclo de vida, não somente em seu descarte.

Enquanto um produto derivado do petróleo, os plásticos também podem ser considerados um vilão do clima, já que a queima de combustíveis fósseis é uma das grandes responsáveis pelo aquecimento do planeta.

Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a produção global de plásticos duplicou de 2000 a 2019, atingindo 460 milhões de toneladas por ano.

A previsão é que esse número triplique até 2050, se nenhuma medida for tomada pelos líderes globais. Logo, mais gases do efeito estufa serão lançados na atmosfera, agravando a crise climática e impedindo que a humanidade mantenha a temperatura do planeta abaixo de 1,5ºC.

É essa realidade que os líderes mundiais não podem ignorar durante as negociações para criação do Tratado Global dos Plásticos, que serão retomadas na próxima semana, no Quênia. É urgente que os governos acordem um texto ambicioso, que responda à crise do plástico à altura de sua gravidade.

Neste contexto, o Greenpeace está pedindo aos governos para que reduzam a produção de plástico em pelo menos 75% até 2040! Esta porcentagem também é indicada por consultorias e organizações de pesquisa, como a Eunomia e a Pacific Enviroment, como uma medida que nos ajudaria a evitar o pior da crise climática. 

Esta é uma crise planetária tripla – a produção desenfreada de plásticos acentua as mudanças climáticas, provoca poluição em escala e ameaça a biodiversidade marinha. A nova rodada de negociações na ONU é uma oportunidade única de uma ação internacional ousada e efetiva. 

O Tratado Global dos Plásticos precisa de regras ambiciosas que, além de reduzirem drasticamente a produção, incentivem sistemas de reuso e ações que acelerem uma transição energética justa. 

Já são mais de 2 milhões de pessoas ao redor do mundo pressionando os líderes globais para que não cedam aos interesses da indústria e defendam o meio ambiente. Faça parte da mobilização e assine a petição “Futuro sem plásticos!”.

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Lu Sudré é jornalista do Greenpeace Brasil em São Paulo e atua na frente de Oceanos. Tem experiência na cobertura de temas relacionados ao meio ambiente, direitos humanos e polític

Navio do Greenpeace resgata baleia presa em equipamentos de pesca

Laís Modelli 

Mais de 300 mil golfinhos e baleias morrem todos os anos ao se prenderem em emaranhados da indústria pesqueira. É inaceitável que atividades econômicas prosperem às custas de vidas. 

O nosso famoso navio Greenpeace Arctic Sunrise em ação, em outubro de 2023.
O nosso famoso navio Greenpeace Arctic Sunrise em ação, em outubro de 2023. © Ivan Castaneira / Greenpeace

O nosso famoso navio Greenpeace Arctic Sunrise entrou em ação mais uma vez no dia 21 de outubro. O objetivo era um velho conhecido nosso: resgatar uma baleia jubarte presa em equipamentos de uma embarcação de pesca. 

Todos os anos, mais de 300 mil golfinhos e baleias morrem ao se prenderem em emaranhados da indústria pesqueira. Para se ter noção do tamanho do problema, esse tipo de incidente é a principal causa de mortalidade de baleias e golfinhos, enquanto que colisões com navios pesqueiros são a segunda maior causa de morte.

“O número impressionante de baleias e golfinhos que perdem a vida todos os anos por causa da indústria da pesca é simplesmente inaceitável. Enquanto conseguimos salvar uma vida, cerca de mil outras, provavelmente, foram vítimas de emaranhados e afogamentos no mesmo dia. Isso não pode ser tolerado e aceito como o custo de se fazer negócios”, afirmou Ignacio Soaje, chefe da tripulação do Greenpeace Arctic Sunrise.

O resgate da baleia jubarte aconteceu no Oregon, Estados Unidos. O Greenpeace Internacional notificou o caso à Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA). 

As baleias são seres essenciais para o equilíbrio da vida nos oceanos, pois suas fezes (ricas em nutrientes) servem como um “adubo” da vida marinha e auxiliam na luta para conter a crise climática. Exagero? Não, uma vez que fitoplânctons, seres microscópicos que removem carbono da atmosfera por meio da fotossíntese, dependem das fezes das baleias para sobreviverem. Viu como tudo está interligado na natureza? 

Santuários oceânicos

O fundo do mar é lar de uma enorme biodiversidade ainda pouco conhecida pela ciência. A certeza, contudo, é que a vida marinha é fundamental para o equilíbrio do clima do planeta. 

Por isso, o Greenpeace lançou este ano o “30×30: Do Tratado Global dos Oceanos à proteção dos mares”, que indica caminhos para que se proteja 30% dos oceanos em todo o mundo até 2030. Um desses caminhos é a criação de santuários oceânico, áreas de alta proteção ou proteção integral em alto-mar onde a biodiversidade marinha pode se desenvolver sem os impactos de atividades predatórias. 

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Laís é jornalista especializada na cobertura de temas relacionados à Amazônia e às negociações climáticas há quase dez anos. Rema e limpa praias nas horas vagas.

Thursday, November 2, 2023

Cúpula das Três Bacias: passo importante para proteger florestas tropicais, mas faltou ação

Laís Modelli 

Apesar do importantíssimo objetivo de restaurar 350 milhões de hectares de florestas tropicais, o evento não se comprometeu com metas concretas nem garantia dos direitos dos povos indígenas. 

Floresta Amazônica em Rondônia. Em setembro, o Greenpeace Brasil realizou uma expedição de campo na Amazônia, passando por Porto Velho, em Rondônia, e Humaitá e Lábrea, no Amazonas, para registrar o avanço do desmatamento na região, o fogo e os impactos das queimadas.

Representantes dos países com as maiores florestas tropicais do mundo se encontraram na Cúpula das Três Bacias (a saber: bacias do Rio Amazonas, do Rio Congo e das Bacia de Bornéu-Mekong-Sudeste Asiático), na República Democrática do Congo, com o objetivo de implementar a primeira coligação mundial para restaurar 350 milhões de hectares de ecossistemas de florestas tropicais terrestres e aquáticos (Peatland e Mangues). Uma delegação do Greenpeace formada por representantes do Brasil, África e Indonésia acompanhou as conversações.

Apesar da importância e urgência do objetivo (conservar florestas tropicais e restaurar áreas degradadas é uma das ações centrais na luta para conter a atual crise climática), a declaração final da Cúpula das Três Bacias, publicada na terça-feira (31), não se compromete com ações concretas para a proteção e restauração das florestas tropicais, assim como não se compromete com a garantia dos direitos dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

Também chamou a atenção a falta de uma presença de peso do governo brasileiro na Cúpula, que busca retomar a liderança nos fóruns de discussões ambiental e climática e nas questões geopolíticas Sul-Sul. 

Floresta tropical em Bornéu, no Parque Nacional Tanjung Puting, na Indonésia.
© Ulet  Ifansasti / Greenpeace

Falsas soluções

Outro ponto de atenção da Cúpula das Três Bacias foram os controversos mercados de carbono, apresentados como o principal mecanismo financeiro para proteger e restaurar os ecossistemas de biodiversidade e as florestas tropicais. 

Diversas instituições e pesquisadores têm alertado que o mercado de carbono é uma falsa solução para a crise climática, pois reforçarão a mercantilização da natureza (e a sua destruição) e violarão os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais.

“O mercado de carbono, como está proposto, transforma a floresta em commodity e viola os direitos humanos. O financiamento do combate à crise climática e da perda de biodiversidade devem ser inovadores como proposto na declaração da Cúpula, tendo como características principais serem não mercadológicos, transparentes, acessíveis e previsíveis. Além disso, qualquer solução para conter os efeitos da crise climática deve reconhecer e privilegiar o papel das comunidades tradicionais e dos povos indígenas na proteção das florestas e garantir os seus direitos”, diz Romulo Batista, porta-voz de florestas tropicais do Greenpeace Brasil.

Povos indígenas e comunidades locais protegem mais de 75% das florestas no mundo, mas, até agora, o seu papel e conhecimento na conservação da natureza e da biodiversidade ainda não foram suficientemente reconhecidos.

Restauração dos ecossistemas já!

A Cúpula das Três Bacias ocorreu nos dias 26 a 28 de outubro. O evento acontece no âmbito da Década para a Restauração dos Ecossistemas, das Nações Unidas, que visa deter a degradação dos ecossistemas e restaurá-los para reverter o colapso da biodiversidade e desacelerar as mudanças climáticas. 

A atual década (2021-2030) é apontada pelos cientistas como a nossa última chance de evitar os efeitos catastróficos das mudanças climáticas. Ou seja, se quisermos evitar o pior, ainda há tempo, mas precisamos agir AGORA. O tempo está se esgotando. 

Por falar em tempo, estamos há um mês da COP28, a Cúpula do Clima da ONU, que será realizada em Dubai. O Greenpeace Brasil participará da COP28 e reforçará a urgência de regulamentar o financiamento climático global para que os países com menos recursos financeiros e tecnológicos – justamente os que menos contribuíram para a crise do clima e os que mais sofrem seus impactos hoje – possam se adaptar. Os efeitos negativos das mudanças climáticas não podem ser mais um fator para acentuar as desigualdades entre os países. Precisamos de Justiça Climática real, e não de falsas soluções que continuem privilegiando os mais ricos.

O navio Rainbow Warrior navega pelo Rio Amazonas pela primeira vez no Brasil, em março de 2012
O navio Rainbow Warrior, do Greenpeace, navega pelo Rio Amazonas pela primeira vez no Brasil, em março de 2012.
© Rodrigo Baleia / Greenpeace

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Laís é jornalista especializada na cobertura de temas relacionados à Amazônia e às negociações climáticas há quase dez anos. Rema e limpa praias nas horas vagas.

Em meio a seca histórica, Amazônia tem recorde de queimadas em outubro

Greenpeace Brasil 

O número de focos de calor registrados no bioma no último mês chegou 22.061, é o maior número dos últimos 15 anos para o mês de outubro, segundo dados do Inpe

Queimada em desmatamento recente na Gleba Abelhas, uma floresta pública não destinada federal localizada no município de Canutama, Amazonas, registrado em agosto de 2023. (© Marizilda Cruppe / Greenpeace)

Dados apresentados nesta quarta-feira (1) pelo Programa Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revelam que outubro teve o maior número de focos de calor na Amazônia para o mês desde 2008. As informações do INPE mostram 22.061 focos de calor no bioma, em meio a um cenário de seca histórica na região que vem afetando milhares de pessoas. 

O Pará (41,5%), o Maranhão (15,6%) e Amazonas (14,1%) registraram o maior número de focos de calor nos estados da Amazônia Legal. “O número surpreendente de focos na Amazônia tem como facilitador a seca severa que se instalou na região. No entanto, muitas áreas queimam como parte do processo de desmatamento e na reforma de lavouras e pastagens. Nos últimos anos, grandes porções de floresta foram desmatadas e não queimadas, o prolongamento e intensificação do período seco é propício para concretizar tais atividades” explica Cristiane Mazzetti, porta-voz do Greenpeace Brasil.

Focos de calor são pontos geográficos captados por satélites de monitoramento – esses pontos apresentam temperatura acima de 47ºC e área mínima de 900 m², ou seja, são fortes indicadores de incêndios ou queimadas.

O estado do Pará registrou o segundo pior mês de outubro da série histórica, perdendo apenas para outubro de 2008. Já os estados do Amazonas e Acre bateram recorde: registraram o maior número de focos para outubro de toda a série, iniciada em 1998. Vale também mencionar que a cidade de Manaus está encoberta há dias pela fumaça das queimadas e incêndios.

Entre os municípios que concentraram o maior número de focos de calor estão Portel (PA), com 859 focos, e Lábrea (AM), com 515 focos. Sete, dos 10 municípios com mais focos, estão no Pará. 

Cerrado: na mira do Agro que desmata

Considerando todos os estados e biomas do Brasil, o Piauí ficou em 3º lugar entre os que mais queimaram em outubro de 2023. O estado abriga áreas de Caatinga e de Cerrado, e faz parte da área de interesse econômico da agroindústria denominada de MATOPIBA (acrônimo de Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia). 

Em 2023, de janeiro a outubro, o Cerrado registrou uma área de 6.613 km2 com alertas de desmatamento (até dia 20/10), um aumento de 30,3% na comparação com o mesmo período do ano passado (considerando outubro fechado), e 45.232 focos de calor. Só em outubro, foram 8.371 focos. No Piauí, foram registrados 3982 focos de calor, ou 10% de todos os focos registrados no País. 

“No Cerrado a situação é preocupante. O bioma já perdeu metade da sua formação original, é uma fronteira ativa de expansão do agronegócio e a legislação é muito mais permissiva para o desmatamento, em comparação com a Amazônia, e não há iniciativas privadas e setoriais que levem ao fim de seu desmatamento. Estamos caminhando para extinguir um ecossistema de extrema relevância climática e para a biodiversidade”, alerta Mazzetti.

A região entre os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, conhecida como MATOPIBA, é considerada a vitrine do agronegócio brasileiro. Não por um acaso, é onde o desmatamento avança mais violentamente no bioma. (© Marizilda Cruppe / Greenpeace)

Prolongamento da estiagem favorece as queimadas na Amazônia

Este ano, o verão amazônico, quando o clima mais seco favorece a ação de criminosos para o desmatamento e as queimadas, foi potencializado pelo fenômeno climático El Niño, causado pelo aumento das temperaturas do oceano Pacífico, e por um clima ainda mais quente que o normal. Isso aumentou o período com condições propícias para as queimadas criminosas no bioma, alimentando um ciclo destrutivo que ameaça a integridade das florestas, de seus povos e de toda a vida no planeta. 

É importante ressaltar que o desmatamento é a principal fonte de emissões de gases do efeito estufa (GEE) no Brasil. Relatório do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) aponta a categoria “mudança do uso da terra” como responsável por 49% das emissões do país para o ano de 2021. E a piora das mudanças climáticas significa aumento de intensidade e frequência de eventos climáticos extremos, como secas severas, inundações e deslizamentos, episódios que têm sido cada vez mais recorrentes em todo o mundo. 

O cenário combinado de incêndios, seca e fumaça na Amazônia evidencia a crise tripla que vivemos com o agravamento da urgência climática, perda de biodiversidade e também a poluição do ar, com impactos na saúde das pessoas. 

“Esse cenário já era previsto, e mais ações poderiam ter sido direcionadas para prevenção, adaptação e resposta. O mês de outubro é um novo lembrete para que governos ajam rapidamente e com mais ambição, seja em ações emergenciais, ações para prevenção e controle dos incêndios e desmatamento e nas políticas de adaptação às mudanças climáticas.”, finaliza Mazzetti.  

A humanidade já ultrapassou quatro, dos nove limites planetários que viabilizam a vida na Terra. Um desses limites, já parcialmente excedido, é o da integridade da biosfera, que diz respeito à diversidade genética que é importante na adaptação do planeta à mudanças abruptas. E uma vez superados esses limites, isso pode levar a mudanças irreversíveis para todos. É preciso agir agora para frear esse processo.